29 de mai de 2012

Megalixão no Rio fecha sem dados sobre dano ambiental

Daniel Marenco/Folhapress
Após 34 anos recebendo todo o tipo de resíduo, o lixão de Gramacho --considerado o maior da América Latina-- será desativado na sexta-feira (1) sem uma avaliação que aponte o real tamanho da sua contaminação ambiental.


Instalado sobre um mangue às margens da baía de Guanabara e na confluência dos rios Sarapuí e Iguaçu, em Duque de Caxias (Baixada Fluminense), o aterro recebeu ao menos 70 milhões de toneladas de lixo sem qualquer proteção.

Segundo o Inea (Instituto Estadual do Ambiente), não há análises da contaminação e as áreas de mangue ainda necessitam de estudos detalhados para um diagnóstico conclusivo. Somente assim será possível a correta remediação da área.

Antes mesmo de chegar ao lixão, na rua, já é possível ver e sentir a contaminação e a degradação gerada pela destinação inadequada dos resíduos. Porcos, urubus e lixo se misturam aos catadores de materiais recicláveis que tiram dali seu sustento.

Detectar a contaminação de Gramacho ao meio ambiente é ainda mais difícil porque ao redor dele existem ao menos 42 lixões clandestinos, sendo 21 ainda ativos. A meta da Secretaria de Estado do Meio Ambiente do Rio é desativar todos neste ano.

De acordo com o Inea, somente com o fim dessas áreas será possível continuar estudos para gerar mais subsídios para a correta remediação dos danos causados por Gramacho, principalmente à fauna e flora no entorno da baía de Guanabara.

Para o gestor e ex-conselheiro ambiental do Rio, Sérgio Ricardo de Lima, o lixão é uma das maiores fontes de contaminação da baía. "Esse é um passivo ambiental que vai demorar anos para se resolver e precisa de uma atenção especial", disse.

A direção da Comlurb (companhia municipal de limpeza urbana do Rio), responsável pelo lixão, afirmou que não há contaminação ambiental porque o aterro está controlado e sobre uma camada de 17 metros de argila naturalmente impermeável.

Especialistas consultados pela Folha, no entanto, contestaram a afirmação. "Não há argila que seja 100% impermeável. Não existe", diz o professor de engenharia geotécnica da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), Cláudio Mahler.

ANÁLISES
De acordo com o Inea, análises do solo e água subterrânea feitas pelo consórcio contratado pela própria Comlurb para administrar o lixão apontam a presença de metais como chumbo, crômio, ferro e níquel que seriam apenas dos lixões clandestinos.
Além dos metais, foram detectados nitrogênio amoniacal (que indica presença de matéria orgânica e mata os peixes por asfixia) e coliformes totais e termotolerantes (também indicam contaminação por matéria orgânica).


O secretário de Conservação e Serviços Públicos da Prefeitura do Rio, Carlos Osório, afirmou que não tem "dado específico do grau de contaminação gerado por Gramacho". A Comlurb é subordinada à secretaria.
Osório disse ainda que o risco de contaminação da baía está descartado com as ações de prevenção de contaminação feitas pela empresa contratada pela Comlurb para administrar o lixão.

Por dia, o lixão de Gramacho chegou a receber 9.000 toneladas de lixo do Rio e de ao menos oito municípios da região metropolitana: Duque de Caxias, São João de Meriti, Nilópolis, Queimados, Mesquita, Nova Iguaçu, Guapimirim e Petrópolis.
O CTR (Centro de Tratamento de Resíduos) de Seropédica, a 50 km do Rio, para onde o lixo passará a ser levado, tem capacidade para 10 mil toneladas diárias. A estimativa é de que o CTR tenha vida útil de 17 anos.

Para a desativação do lixão de Gramacho, a Prefeitura do Rio já desembolsou ao menos R$ 93,1 milhões entre indenização aos catadores e o montante repassado desde julho de 2007 ao consórcio responsável pelo gerenciamento da área em Duque de Caxias.

Fonte: Folha.com


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