17 de out de 2011

Reservas no Pantanal são utilizadas como campo para pesquisas

RPPNs conservam a natureza e a descoberta de novas espécies. 

Embrapa trabalha em uma das maiores planícies inundáveis do planeta.


Uma imensidão onde o verde das matas se mistura ao azul das baías. São milhares espalhadas pelos 140 mil quilômetros quadrados do Pantanal brasileiro, uma área equivalente à do estado do Ceará.
A planície pantaneira abriga mais de duas mil espécies de plantas, 580 espécies de aves e 152 espécies de mamíferos. Um lugar onde a vida se adapta aos ciclos de seca e cheia todos os anos.
O Pantanal abriga 28 reservas RPPNs, Reservas Particulares do Patrimônio Natural que ajudam a conservar essa riqueza. Na região da Nhecolândia, em Mato Grosso do Sul, a fazenda Nhumirim, tem 862 hectares e pertence à Embrapa Pantanal. São cerca de 20% do total da fazenda. A Embrapa é uma empresa e por isso pode criar áreas de RPPN.
Marcos Tadeu, supervisor da fazenda, diz que tudo começou há 24 anos. “Nossa RPPN foi criada em 1987, claro que ela é anterior a figura da RPPN, ela era uma estação ecológica, e até antes disso tinha já essa preocupação da Embrapa de ter um espaço que diferenciasse das outras ivernadas da fazenda, ou seja, tirar o boi o cavalo daqui”, explica.
Nos pastos nativos são criados 100 cavalos pantaneiros e mais 100 bois pantaneiros, que são objetos de estudo na fazenda, mas esses animais são impedidos de entrar na RPPN. Essa grande área de conservação recebe pesquisadores de todo o Brasil e do exterior.
José Maurício Barbanti, médico veterinário e doutor pela Unesp de Jaboticabal em São Paulo, levou para a fazenda uma equipe de alunos para desenvolver uma pesquisa sobre o comportamento dos veados catingueiros. E não escolheu o Pantanal por acaso. “Aqui é o único lugar onde a gente consegue fazer as capturas do veado catingueiro, porque nós temos esse mosaico de áreas abertas e fechadas, e quando ele sai em um ambiente aberto, é que a gente consegue visualizar e consegue ter acesso para fazer a aplicação do dardo anestésico nele”, afirma. O trabalho de captura exige paciência e ocupa praticamente todo o dia dos pesquisadores. Uma coleira permite aos pesquisadores rastrear os animais via satélite.
A fazenda Nhumirim revela uma fauna riquíssima, principalmente de pássaros. É possível ver caturritas em busca de gravetos para fazer o ninho, pato do mato, quero-quero e marrecos buscando comida, além do papagaio galego e das araras vermelhas. A quantidade de aves e o estado de conservação do Pantanal são tão grandes que permitem a aproximação de animais como o carcará. Em outras regiões do Brasil não é tão fácil chegar perto dessa ave.
Todos esses animais têm a garantia de que dentro da RPPN, a natureza cresce intocada. “O fato de preservar uma região como um todo, nos dá a segurança de que a interação entre as espécies e toda a evolução do sistema, seja conservada para que ela possa seguir o seu curso”, declara Ubiratan Piovezan, zootecnista.
As reservas são importantes não só na preservação da flora, mas também das aves, como a arara-azul, por exemplo. Na mata fechada é mais fácil encontrar o Manduvi, a árvore é a preferida da arara-azul para fazer os ninhos. Só que para atingir as condições ideais para a ave, ela precisa estar com mais de 60 anos, algumas tem aproximadamente 15 metros.
O biólogo Alessandro Pacheco, estuda aves do Pantanal há dez anos. Já registrou mais de 300 espécies só na região da Nhumirim. Ele explica que a arara-azul gosta do Manduvi por causa do tronco que é mais macio para cavar e fazer os ninhos. “Antes tem todo um processo de quebra do galho, o pau faz um oco, ai vem um periquito, um papagaio, até chegar a arara. É uma dinâmica bem longa”, explica.
Na reserva da Nhumirim estão 20 das cerca de 100 baías da fazenda. Nelas, famílias inteiras de tuiuiús, ave símbolo do Pantanal, se alimentam longe de ameaças. Na hora de alçar vôo, o tuiuiú exibe toda sua beleza: asas que podem chegar a dois metros de uma ponta a outra.
As salinas, lagoas de água salgada, servem de fonte de alimento por causa da grande quantidade de larvas de insetos e crustáceos que vivem nesses locais. Aves migratórias, como o pernilongo, pássaro de pernas longas do sul do Brasil e outras espécies de muito mais longe se deliciam nesse banquete.
“Forma uma massa viva de invertebrados, está fervendo vida mesmo nas bordas da salina. Essas espécies que vem da América do Norte, elas passam um tempo aqui, ou os indivíduos mais jovens permanecem aqui um tempo até ficarem maduras e voltar para América do Norte ou são indivíduos mais adultos que estão de passagem aqui para a Patagônia”, explica o biólogo.
A região é tão importante para a preservação das aves que foi incluída na lista de áreas de conservação da organização não-governamental Birdlife International, reconhecida mundialmente.
E não são apenas os pássaros que fazem a riqueza do lugar. A reserva revela surpresas até hoje para os pesquisadores. “Dentro da RPPN da fazenda Nhumirim foi pego em uma rede um morcego, considerado o maior das Américas, em torno de quase um metro de envergadura. Em uma área de capim carona foi encontrada uma espécie nova de lagarto, que está sendo descrita pela primeira vez pela ciência'', conta Alessandro Pacheco.
Fonte: G1
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