27 de abr de 2011

Em nome da flora nativa, reservas se rendem a agrotóxico


Ameaçadas por pragas, reservas ecológicas no país estão fazendo testes com agrotóxicos com o objetivo de garantir a sobrevivência de espécies nativas. A ideia é combater plantas exóticas e invasoras, como a braquiária, um tipo de capim usado em áreas de criação de gado que ameaça o crescimento de outros vegetais.

O estudo mais recente ocorre no Parque Nacional das Emas, em Goiás. A unidade, com área equivalente a 132 mil campos de futebol, registra a presença de cinco espécies de plantas invasoras.

“É uma situação grave, já que as espécies exóticas ameaçam a diversidade”, afirma o diretor do parque, Marcos Cunha.

As primeiras aplicações de glifosato, ainda em nível experimental, começaram neste mês, depois de tentativas com várias outras técnicas, sem sucesso. O contato com o produto, porém, ainda está restrito ao entorno do parque. “Estamos analisando os resultados para depois utilizar no interior, se necessário”, afirma.

Autorização - A iniciativa, ainda tímida no Brasil, já é aplicada em outros países. A Monsanto, uma das maiores fabricantes mundiais de herbicida, doa glifosato desde 2005 à reserva ecológica de Galápagos, arquipélago equatoriano onde Charles Darwin (1809-1882) fez parte de seus estudos.

No Brasil, outras unidades federais de conservação que fazem pesquisas semelhantes são a Floresta Nacional de Bom Futuro, em Rondônia, e os parques Aparados da Serra e da Serra Geral, na divisa de Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

“Simplesmente cortar [o capim] não resolve”, diz o chefe do parque de Aparados da Serra, Deonir Zimmerman, que luta contra a braquiária há 12 anos.

Reservas estaduais do Paraná, Santa Catarina e Espírito Santo também possuem estudos avançados com herbicidas para o combate de espécies exóticas, segundo a ONG Instituto Hórus, que participa de projetos nesses locais.

Uma portaria do Ibama de maio de 2010 autoriza pesquisas com até três tipos de agrotóxicos em florestas nativas, desde que estejam em situação de emergência –e com possibilidade de cancelar a autorização em caso de contaminação. Em muitas unidades nacionais, no entanto, segundo o ICMBio (Instituto Chico Mendes), o plano de manejo sequer considera o uso desses herbicidas.

Silvia Ziller, do Instituto Hórus, afirma que os produtos são uma alternativa mais barata, eficiente e com menor impacto ambiental do que deixar espécies como a braquiária se propagarem. O maior problema, segundo ela, é o risco de incêndio agravado pelo capim. “Se antes o cerrado pegava fogo a cada cinco anos, agora isso acontece em todos eles”, diz.

Divisão – A ideia de aplicar agrotóxicos em parques do país ainda provoca desconfiança entre ambientalistas e pesquisadores. Os próprios diretores das reservas reconhecem que o produto pode sim afetar as espécies nativas.

Em 2007, uma pesquisa da USP mostrou que um agrotóxico aplicado nas cerca de 40 lavouras do entorno do Parque das Emas contaminava aves ameaçadas de extinção. Uma liminar chegou a suspender em 2008 o uso de alguns agrotóxicos em uma faixa de até 2 km ao redor do parque. A decisão, no entanto, referia-se aos tipos mais tóxicos dos produtos, como inseticidas, e foi suspensa meses depois.

O pesquisador Sady Valdes, responsável pelo estudo na época, diz que a aplicação de herbicidas pode até “mudar a paisagem do cerrado”.

Para a engenheira agrônoma Ana Maria Junqueira, que estuda métodos alternativos aos agrotóxicos, produtos como herbicidas trazem riscos de contaminação também ao ser humano. Segundo ela, uma alternativa pode ser a aplicação tópica, em que o produto é usado apenas no local onde há a ameaça.  Mesmo assim, ela diz que os órgãos ambientais precisam ficar atentos para, a partir disso, não perder o controle sobre o uso desses produtos.  

Fonte: Folha.com
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