20 de out de 2010

Arquitetura Sustentável


A sustentabilidade pode comprometer os anseios do arquiteto e limitar a produção intelectual e artística, empobrecendo os projetos? Como a sustentabilidade pode se casar com harmonia com a arquitetura?


Entendemos que não. A sustentabilidade não compromete o projeto nem limita a atuação do arquiteto. Há algum tempo estamos refletindo sobre o assunto no Comitê Temático de Projeto do CBCS (Conselho Brasileiro de Construção Sustentável), com temas ainda emergentes do grupo de sustentabilidade da AsBEA (Associação Brasileira dos Escritórios de Arquitetura). Sempre afirmamos que a sustentabilidade não é um objetivo em si a ser alcançado. Não é uma situação estanque, mas sim um processo, um caminho a ser seguido. Toda a criação nessa área é feita a partir de intenções que são renovadas continua e progressivamente. Intenções essas genuínas, que devem estar verdadeiramente compromissadas com os valores do cliente, este entendido como a síntese do contratante, do usuário e da comunidade socioambiental onde o projeto e a obra estão inseridos.


Não existe a fase ou etapa "sustentabilidade" no processo projetual. Quando isso ocorre pouco se agrega ao resultado final. Existe, sim, a opção pelo sustentável que permeia todo o processo. Esse exercício permanente e constante de lidar com o desejo ao desenvolver seu trabalho pode trazer dúvidas e conflitos ao projetista. A natureza sempre foi e é minimalista. Usa com eficiência a economia de recursos. Isso quer dizer que seremos obrigados a fazer uma transição. Desenvolvemos o saber e o saber fazer com a sociedade de consumo. Vamos ter que fazer o mesmo com a sociedade da sustentabilidade.
Assim, o desafio está em aprender a lidar com esses valores, com as novas possibilidades e conhecimentos tecnológicos que nos permitem criar modelos e soluções adequadas às demandas atuais. Aliás, se fala muito que a boa arquitetura foi, é e será sempre sustentável naturalmente. Não discordamos, apenas entendemos que é necessário aprofundar essa avaliação e desenvolver instrumentos que possibilitem a medição inequívoca de boa parte dessas qualidades.


Exemplo evidente é a disponibilidade atual de dezenas de softwares que permitem a elaboração de modelos arquitetônicos para testar a eficiên­cia energética de soluções bioclimáticas e que mal são utilizados. Propor, medir, explicitar valores e procedimentos são ações que podem sugerir caminhos ou tendências.


Necessitamos mudanças de postura para harmonizar sustentabilidade e arquitetura. Senão, vejamos: quantos projetos são concebidos e construídos considerando o ciclo de vida do ambiente construído? Quais são os processos incorporados à arquitetura e implantados na prática que permitem a redução, mitigação e por final disposição de todos os resíduos produzidos por uma obra? Como medir desempenho dos componentes e garantir habitabilidade, durabilidade e manutenibilidade dos espaços e materiais envolvidos numa construção? Temos um longo caminho a percorrer, mas acreditamos que chegará o momento que não precisaremos mais qualificar e diferenciar arquitetura sustentável de não sustentável; nossas demandas serão outras. A sustentabilidade orientará os projetos naturalmente e a criatividade será mais estimulada na nova beleza da sustentabilidade.


Fonte: Revista Téchne
Related Posts with Thumbnails