10 de set de 2010

Sem cooperativas suficientes, lixo reciclável é desperdiçado em SP

Papelão, vidro ou garrafas PET acabam não sendo reaproveitados. Programa de coleta seletiva não contempla 22 dos 96 distritos de SP.

A secretária Silvana Fuzatto, de 50 anos, faz um trabalho solitário no prédio onde mora, no M'Boi Mirim, Zona Sul de São Paulo. Subsíndica de um dos 27 blocos do condomínio, ela separa o lixo reciclável e vende parte dele a uma cooperativa da região. O dinheiro, diz a secretária, é revertido em melhorias para os moradores dos nove andares do prédio.

Ela é a única a pensar nessa questão, já que o programa de seleção dos resíduos sólidos, como plástico, vidro e papel, foi abandonado pela administração geral do conjunto residencial.

A realidade do Condomínio Parque Residencial M'Boi Mirim é a mesma do bairro inteiro. Segundo informações da Secretaria Municipal de Serviços, 22 dos 96 distritos da capital não são contemplados pelo programa de coleta seletiva. Dez estão na Zona Leste, três na Zona Norte, seis na Zona Sul e três distritos ficam na Zona Oeste.

A Subprefeitura de M'Boi Mirim é uma das regiões onde não há o programa de coleta seletiva. Isso quer dizer que pelas ruas dessa área só passam os caminhões que recolhem o lixo do dia a dia. No caso de onde Silvana vive, os garis retiram as sacolas três vezes por semana.

“O condomínio não tem dinheiro para investir. Teríamos que pagar para um centro de reciclagem vir buscar esse lixo reciclável ou pagar um funcionário nosso que levaria até lá. Seria um prejuízo para o condômino”, explica o síndico do condomínio, Paulo Aleixo. Por dia, os cerca de 3 mil moradores dos 972 apartamentos produzem cem sacos de lixo de cem litros. “Alguns até separam as garrafas, a embalagem da pizza, as latinhas, mas acabam indo para o mesmo saco preto”, admite Aleixo.

Frustração

Silvana lamenta. “É frustrante. Tentei colocar isso na cabeça dos moradores, mas é difícil. Eu faço por uma questão ambiental”, afirma ela, que tem duas lixeiras na cozinha. Uma delas só para os produtos recicláveis. As sacolas do bloco onde a secretária mora são levadas por catadores de uma cooperativa da região.

Dois funcionários do Parque Residencial M'Boi Mirim passam nos 27 blocos diariamente com um carrinho elétrico. Acoplada ao veículo, há uma grande gaiola, onde são deixados os sacos do lixo. Tudo é deixado em uma casinha, que tem porta para a rua. Ali, durante as madrugadas, o caminhão passa e leva os resíduos.

A Prefeitura tem contrato com duas empresas para o recolhimento de 10 mil toneladas de lixo domiciliar que São Paulo produz por dia: a Loga e a Ecourbis. Os caminhões da coleta seletiva passam, normalmente, uma vez por semana, para retirar materiais que servem às centrais de triagem. Ali, cooperativas que mantêm convênio com a administração municipal separam o que pode ser vendido, como latinhas, garrafas PET, vidros, alumínio, entre outros.

Para Sabetai Calderoni, presidente do Instituto Brasil Ambiente, a situação decepciona. “Muita gente separa o lixo e fica frustrada porque ele vai direto para o aterro, não é tratado”, afirmou Calderoni, que é autor do livro "Os bilhões perdidos no lixo."

De acordo com ele, um terço das 120 toneladas de lixo reciclável que a Prefeitura diz recolher em 74 distritos é desperdiçado. O prejuízo, que leva em conta o valor do material vendido às empresas recicladoras, seria de R$ 3 milhões ao ano. “As cooperativas não têm capacidade de reciclar tudo. É uma pena.”

Faltam cooperativas

"As cooperativas não têm capacidade de reciclar tudo.
É uma pena." Sabetai Calderoni, presidente do Instituto Brasil Ambiente

Especialistas e pessoas que trabalham com os resíduos consideram o problema grave na cidade, já que não há cooperativas suficientes para essa seleção, o que geraria desperdício. Produtos que poderiam ter outro destino acabam jogados em aterros ou lixões a céu aberto.

De acordo com a Secretaria Municipal de Serviços, são 18 centrais de triagem – uma delas trata apenas do lixo eletrônico (como de peças de computador) e as 17 restantes separam o material que vai para a reciclagem. “Falta cooperativa para dar conta. É insuficiente. Para ficar bom, [São Paulo] deveria ter, no mínimo, mais dez”, opina Sérgio Longo, presidente da Coopere, cooperativa de materiais recicláveis na região central da capital.

Tanto a Loga quanto a Ecourbis informaram que cabe ao Departamento de Limpeza Urbana (Limpurb), vinculado à Secretaria de Serviços, estabelecer, em contrato, a rota dos caminhões que fazem a coleta seletiva. Questionada sobre os 22 distritos que estão fora desse programa, a assessoria de imprensa da Secretaria alega que existem alternativas para que o cidadão descarte seus resíduos recicláveis.

Comunicado

Os moradores da cidade podem procurar a cooperativa mais próxima de sua casa ou levar o material “a um dos 3800 pontos de entrega voluntária presentes em supermercados, condomínios residenciais, comerciais e públicos”, como informa o comunicado da assessoria. O endereço dessas centrais de triagem conveniadas é encontrado na no site da Limpurb.

“Quem organiza esse roteiro (da coleta seletiva) é a Limpurb”, afirma o presidente da Loga, Luiz Gonzaga, que diz recolher 1.700 toneladas de lixo reciclável por mês. A assessoria de imprensa da Ecourbis explica que “os distritos onde a coleta seletiva deve ser realizada foram definidos no edital da concessão e a prerrogativa de fazer alterações é da Prefeitura”.

Fonte: G1
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