27 de jul de 2010

Resíduos sólidos nos manguezais: um problema ignorado

Bianca Pinto Vieira

Há um costume humano de ocupar áreas litorâneas devido à maior disponibilidade de recursos oferecidos pelo ambiente. Nos últimos dois séculos, o adensamento urbano e a explosão populacional nas localidades próximas à costa vêm pressionando os sistemas biológicos naturais. Um dos grandes problemas observados com crescimento urbano nos ambientes costeiros é o acúmulo de resíduos, que contribui para a degradação da fauna e flora locais.

Estudos sobre o impacto de resíduos sólidos em regiões costeiras são, em geral, realizados com foco apenas nas praias. Pouca atenção tem sido dispensada aos ecossistemas de manguezal neste aspecto.

Os ecossistemas dos manguezais são considerados essenciais na reprodução, proteção e alimentação de diversas espécies. Animais como aves, peixes, camarões, caranguejos e moluscos passam parte de seus ciclos de vida nos manguezais. Desta forma, tais ecossistemas possuem vital importância na manutenção e conservação da biodiversidade brasileira, incluindo espécies ameaçadas e de considerável valor econômico, como o guará (Eudocimus ruber) e a tainha (Mugil platanus).

Apesar de todo o conhecimento sobre os manguezais, sua importância parece ser apreciada apenas nos livros e artigos científicos. Pois as políticas públicas e ações civis continuam a negligenciar sua existência. Aterros clandestinos, deposição de esgoto, queimadas e pesca indiscriminada são problemas constantes nos manguezais. E mesmo com uma legislação ambiental os interesses político-econômicos abrem brechas nestas para a realização de atividades danosas ao ambiente.

Rede de pesca e tijolo incrustado por mexilhões (Mytilus edulis) e cracas (Balanus glandula) encalhados no capim praturá (Spartina alterniflora). Muitos resíduos trazem espécies exóticas. Outros acabam se tornando locais de fixação e moradia para espécies nativas, porém isto pode ser um problema grave dependendo da natureza do material, que pode ser cortante ou de formato difícil para a saída o animal. © Bianca Pinto Vieira / Projeto Manguezal

Rede de pesca e tijolo incrustado por mexilhões (Mytilus edulis) e cracas (Balanus glandula) encalhados no capim praturá (Spartina alterniflora). Muitos resíduos trazem espécies exóticas. Outros acabam se tornando locais de fixação e moradia para espécies nativas, porém isto pode ser um problema grave dependendo da natureza do material, que pode ser cortante ou de formato difícil para a saída o animal. © Bianca Pinto Vieira / Projeto Manguezal

Pouco ainda se sabe sobre a dinâmica de encalhes de resíduos sólidos urbanos nos manguezais, contudo é de conhecimento comum que este ecossistema sofre impactos diferenciados em cada região. Estudos recentes apontam que a morfologia vegetal é um fator importante no encalhe de resíduos. Vegetações mais densas nas bordas funcionam como uma malha que impede a entrada de muitos resíduos na floresta do manguezal. Também o praturá (Spartina alterniflora) tem esse efeito. Quando a maré sobe trazendo os resíduos, o capim impede sua chegada ao interior da mata. Por um lado este processo é positivo, pois impede que os resíduos adentrem e afetem mais intensamente o interior do manguezal. No entanto, são essas vegetações densas de borda que abrigam ovos e juvenis de diversos animais marinhos, do berbigão (Anomalocardia brasiliana) ao robalo (Centropomus spp.). Ocasionando maior impacto dos resíduos justamente no início do ciclo de vida de muitas espécies.

Outro aspecto no encalhe de resíduos sólidos é a proximidade de áreas urbanas e turísticas. A quantidade de resíduos praticamente duplica quando são analisadas áreas de manguezal mais próximas de residências, centros urbanos, portos e praias, por exemplo. Estima-se que os resíduos destas fontes cheguem aos manguezais por via direta, com descarte desde água de lastro e embalagens até móveis e escombros, ou indireta, por ação dos ventos e maré.

Rede de pesca enrolada nos galhos de mangue-preto (Avicennia schaueriana). Muitas redes que se prendem aos galhos e raízes dos mangues acabam sendo perigosas armadilhas. Aves acabam se enroscando nestas redes quando pousam nos galhos, andam pelos pneumatóforos ou em seu vôo por entre os galhos, podendo vir a óbito. Quando a maré sobe, muitos peixes também se enroscam nestas redes e acabam morrendo. © Bianca Pinto Vieira / Projeto Manguezal

Rede de pesca enrolada nos galhos de mangue-preto (Avicennia schaueriana). Muitas redes que se prendem aos galhos e raízes dos mangues acabam sendo perigosas armadilhas. Aves acabam se enroscando nestas redes quando pousam nos galhos, andam pelos pneumatóforos ou em seu vôo por entre os galhos, podendo vir a óbito. Quando a maré sobe, muitos peixes também se enroscam nestas redes e acabam morrendo. © Bianca Pinto Vieira / Projeto Manguezal

O descarte direto de resíduos e da água de lastro por navios é uma grave fonte de resíduos e animais exóticos invasores. Os locais próximos a portos são os que mais sofrem desequilíbrios ambientais pelo descarte da água do lastro de navios de carga.

Os bueiros de escoamento de água pluvial das áreas urbanas são uma das vias de chegada dos resíduos, pois são indevidamente utilizados como lixeira e saída de esgoto. O problema deste uso irregular dos bueiros está não só na inutilização desta ferramenta em tempos de chuvas, já que o entupimento impede o escoamento de água, como também no fato de que, na maioria das cidades costeiras, o destino final destas redes é o mar. E do mar, com auxílio dos ventos, os resíduos (boa parte flutuante) seguem para os manguezais.

Já as praias, influenciam na presença da maioria do material plástico encontrado. Trata-se de produtos característicos de frequentadores de praias, os quais podem ter side descartados indevidamente e, levados ao mar, chegam aos manguezais também por ventos e correntes.

Chinelo com algas encalhado entre os pneumatóforos de mangue-preto (Avicennia schaueriana). © Bianca Pinto Vieira / Projeto Manguezal

Chinelo com algas encalhado entre os pneumatóforos de mangue-preto (Avicennia schaueriana). © Bianca Pinto Vieira / Projeto Manguezal

O modo como o crescimento populacional sem infraestrutura avança em áreas costeiras é insustentável. Uma das melhores alternativas é a compatibilização de atividades sócio-econômicas e conservação dos recursos costeiros através da efetivação da fiscalização e de ferramentas políticas como os planos de gerenciamento costeiro e balneabilidade.

A preocupação global, principalmente da rede turística, com a qualidade de vida e conservação do ambiente é de grande auxílio no processo de manejo ambiental. Os municípios costeiros, principalmente os que possuem atividades turísticas vinculadas às belezas naturais, devem se preocupar com a melhoria constante de balneabilidade, presença de resíduos sólidos urbanos, infraestrutura e segurança.

Para tentar amenizar as pressões antrópicas no ambiente, é preciso utilizar as diversas ferramentas a nosso dispor, desde investimentos científicos, iniciativas político-econômicas até atividades sociais, educação ambiental e mudanças individuais de hábitos. É necessário partirmos da teoria para a prática e agirmos sem discriminações neste processo de ensinamento, ação e aprendizado.

Bianca Pinto Vieira é acadêmica da Universidade Federal de Santa Catarina

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