6 de jul de 2010

Marketing verde: empresas e governo descumprem promessas de reflorestamento


O chamado marketing verde prolifera no País. Sob a bandeira da compensação ambiental, empresas e governos anunciam o plantio de milhões de árvores. Cumprir o prometido é outra história. O caso da prefeitura do Rio, que se comprometeu a reflorestar 40 hectares nos Jogos Pan-Americanos e não plantou uma semente sequer, é um exemplo de como essas iniciativas podem nascer e morrer no papel.


Anunciado pela prefeitura do Rio, o plantio de 100 mil mudas de Mata Atlântica tinha o objetivo de compensar as emissões de CO2 geradas pela realização do Pan. Segundo inventário da Coppe/Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a plantação ocorreria entre o Parque da Pedra Branca e a Floresta Nacional da Tijuca. O projeto ? orçado em R$ 2 milhões ? consta no site do governo do Rio para a promoção da Olimpíada de 2016 como iniciativa de sucesso.

"Fizemos o estudo, entregamos nossa parte, mas as mudas não foram plantadas", diz o pesquisador Luciano Bastos, membro da Coppe responsável pelo projeto. A Secretaria Municipal de Meio Ambiente diz que o plantio não ocorreu porque a Petrobrás, que seria parceira no projeto, "declinou". Ao ver que a plantação não vingaria, a Coppe, responsável por centralizar os recursos, devolveu à Petrobrás R$ 491 mil. A Petrobrás afirma que "aguarda a definição da prefeitura e do governo de um novo cronograma para realizar a ação".

Em 2009, quando a cidade do Rio foi escolhida sede da Olimpíada, a secretária estadual do Ambiente, Marilene Ramos, anunciou: "Até 2016 vamos neutralizar a emissão de gases com a plantação de 24 milhões de mudas." Nove meses depois, o projeto não andou. O governo diz que precisa mapear áreas aptas para reflorestamento e fazer levantamento dos viveiros. "Todos fazem esse blá-blá-blá verde, mas não existem mudas nem sementes no mercado para isso tudo", afirma Telmo Borges, engenheiro florestal da superintendência de Biodiversidade da secretaria.

Há ainda casos em que a propaganda ambiental é interpretada como enganosa, como ocorreu com a Rede Ipiranga, que teve recomendação para alterar um filme publicitário após queixa de consumidores. A Ipiranga prometia "neutralizar todo o gás carbônico que o combustível de seu carro lança na atmosfera". Ao Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária, consumidores alegaram que a propaganda era "enganosa e deseducativa, ao alimentar a ideia de que é possível queimar petróleo sem emitir CO2".

Em nota, a Ipiranga informou que plantou 130 mil mudas de caroba, ipê-amarelo, pitangueira e seringueira. O número reduzido de espécies foi alvo de críticas. "Não há projeto sério de compensação com monocultura. Para atingir a compensação deve-se ter no mínimo 80 espécies diferentes", afirma o engenheiro Francisco Maciel.

Segunda maior mineradora do mundo, a Vale anunciou em 2007 o plantio de 346 milhões de árvores até 2010. Na ocasião, informou que se tratava do "maior projeto de revegetação e preservação ambiental da América Latina". Após alguns meses, o prazo foi revisto para 2015. Até agora, 25 milhões de mudas foram plantadas (7% do total). Segundo a Vale, a meta para 2015 está mantida.

Projetos de reflorestamento já anunciados para os próximos cinco anos vão demandar 20 bilhões de mudas em todo o País. A estimativa é do Ministério da Agricultura. Coordenador de Sementes e Mudas da pasta, José Neumar Francelino reconhece que hoje não existe uma estrutura para que os projetos sejam atendidos. Porém, ele diz que a Embrapa prepara um diagnóstico e que o Sistema Nacional de Sementes e Mudas está "caminhando para organização".

Segundo recente levantamento encomendado pelo governo do Rio, foi verificada no Estado uma capacidade instalada de produção de até 10 milhões de mudas por ano - isso na melhor das hipóteses.

Para o maior produtor do Rio, o engenheiro florestal Marcelo de Carvalho, muitos projetos "ficam só no marketing". "Ninguém sabe nada. Ninguém audita nada. O que ganhamos com isso? Se uma empresa começa a mostrar que deu certo, outras vão no rastro. Mas é mais barato gastar R$ 200 milhões em publicidade do que R$ 1 bilhão em ações efetivas de recuperação. E o governo é omisso.

REPORTAGEM PUBLICADA NO ESTADO DE SÃO PAULO

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